O Vale do Silício brasileiro

O Vale do Silício brasileiro

Quando o assunto é o desenvolvimento de novas tecnologias, startups e inovação, quase que invariavelmente nos lembramos do Vale do Silício norte americano, berço de gigantes como a Intel, Apple, Google, Yahoo!, Facebook e tantas outras.

Localizado na Califórnia, nos Estados Unidos, a região tem cerca de 3 mil quilômetros quadrados e abrange uma série de conhecidas cidades, como Palo Alto, Santa Clara, Fremont, Neward e tantas outras.

A região recebeu este nome não devido à abundância de jazidas de silício, como muitos pensam, mas sim por ter sido ali que se instalaram uma série de empresas de semicondutores, que utilizam o silício como seu componente essencial.

O marco para o início da próspera saga deste polo de referência no desenvolvimento tecnológico é 1956, quando William Shockley, um dos criadores do transistor, abre na cidade de Mountain View a empresa Shockley Semicondutor Laboratory. De lá para cá, a região tornou-se uma espécie de imã para empresas do ramo de desenvolvimento de software, internet e telecomunicações.

Com um ambiente altamente inovador, o Vale do Silício, além de ser o privilegiado local de residência das grandes empresas do mercado, é também um polo que atrai as mentes mais inquietas e os novos talentos, que buscam por meio de startups revolucionar o mercado tecnológico.

Polos de excelência ao longo do país

Para se atingir níveis de excelência no desenvolvimento de novos produtos tecnológicos, é preciso antes de mais nada que as condições materiais e culturais adequadas estejam presentes. Mais do que o agrupamento de startups, o Vale do Silício é um verdadeiro polo catalizador de competências, habilidades e atitudes que junta desenvolvedores, investidores e os centros de formação, as Universidades. Ao trabalharem de forma conjunta, esses atores criam um ambiente próspero e sinérgico, que se auto alimenta e permite que a inovação aconteça.

No Brasil, apesar de não haver uma região tão característica quanto o Vale do Silício americano, há uma série de polos tecnológicos de excelência espalhados pelo país.

Uma das experiências de maior sucesso do Brasil é o Porto Digital, localizado no Recife, fundado no ano 2000. Com uma área total de 171 hectares, o Porto Digital é um polo que congrega mais de 300 empresas, órgãos do Governo e agências de fomento, que atuam em diversas áreas, como as de softwares, games, design, música, cinema, vídeo, animação e fotografia.

Funcionando com base no modelo Triple Helix, que preconiza a integração das ações das empresas, da academia e governo, o Porto Digital já foi considerado pela ANPROTEC – Associação Nacional de Promotoras de Empreendimentos Inovadores, nos anos de 2007, 2011 e 2015, o melhor parque tecnológico do Brasil.

Outra região que se destaca no Brasil é o San Pedro Valley. Surgido em 2011, no bairro de São Pedro, em Belo Horizonte, o polo tecnológico começou despretensiosamente com a junção de pessoas com os mesmos objetivos, e faz no nome uma alusão ao pródigo polo irmão norte-americano. Atualmente, já existem mais de 300 empresas instaladas na região, entre startups, incubadoras e espaço de coworking, o que garante uma rica dinâmica de negócios.  

O polo mineiro não é uma marca registrada, ou seja, não possui formalização jurídica e, por isso não cobra mensalidade. O San Pedro Valley, dessa forma, busca ser muito mais do que uma simples agregação de startups, mas sim uma forma de pensar, de se inserir de forma dinâmica, espontânea e sinérgica na realidade, uma verdadeira comunidade voltada para o desenvolvimento e a inovação.

Ainda em Minas, mas agora mais ao sul do estado, também há um importante polo tecnológico para o país, “O Vale da Eletrônica”, localizado no município de Santa Rita do Sapucaí. Seu surgimento se deu principalmente pela instalação de pioneiras instituições de ensino na região, a partir do final da década de 50, voltadas para o ensino da eletrônica, informática, telecomunicações e administração. Atualmente, o polo tecnológico de Santa Rita do Sapucaí, congrega mais de 153 empresas, que juntas empregam mais de 14.700 pessoas.

Na região Sudeste, outro importante centro de desenvolvimento e inovação tecnológica encontra-se localizado na cidade de São José dos Campos, no Parque Tecnológico. O espaço, que busca ser um ambiente sinérgico capaz de estimular a cooperação empresa-empresa e empresa-instituição de pesquisa, congrega desde startups até e empresas médias e grandes, dos mais diversos ramos. Destaque para o Cluster Aeroespacial Brasileiro, que agrega cerca de 100 empresas do ramo da aviação, que ao dividirem um mesmo espaço físico conseguem uma melhor comunicação e integração de grande parte de seus processos, o que gera um aumento da força e visibilidade do grupo como um todo. O cluster também se beneficia da disponibilidade da mão de obra de altíssimo nível formada pelo ITA – Instituto Tecnológico da Aeronáutica, com engenheiros e pesquisadores versados nas mais diversas áreas, como aerodinâmica e propulsão e física atômica e molecular.

E por falar em integração empresa-instituição de pesquisa, há também importantes avanços na área do agronegócio, principalmente no interior do Estado de São Paulo. Universidades estaduais paulistas, como a USP campi Piracicaba e Ribeirão Preto, e a UNESP campus Botucatu, são importantes vetores de desenvolvimento e pesquisa do agronegócio, e funcionam como formadoras de excelente capital humano a ser absorvido por startups e grandes empresas do setor. As parcerias mostram-se bastante profícuas, e avançam a passos largos na inovação no meio rural, desenvolvendo produtos e processos, por exemplo, nas áreas de genética, mapeamento por satélite, pecuária e drones, utilizados nas lavouras.

Existem também diversos outros importantes polos tecnológicos espalhados pelo país, como no Rio de Janeiro, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Apesar de não existir no Brasil um “vale” tão famoso quanto o do Silício, isso de forma alguma serve como demérito, muito pelo contrário. A inspiração do modelo desenvolvido lá fora nos serve de inspiração para o incremento de esforços no sentido de agregar pessoas e processos em prol do desenvolvimento de tecnologias inovadoras, capazes de garantir certo grau de soberania e estabilidade ao país.

Marcos Liberato Marcos LiberatoAdministrador de empresas, formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, pós-graduado em computação gráfica pelo SENAC, amante de games, animações, tecnologia e internet. Sócio fundador e diretor de Marketing da AE Digital.
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